“A recessão está começando a ser vencida, e os salários seguem crescendo”, diz Zylberstajn

Apresentação do professor doutor e pesquisador da Fipe foi
realizada durante
workshop no Sinproquim na quinta-feira (28) 

A percepção positiva do professor doutor Hélio Zylberstajn quanto ao crescimento econômico que começa a surgir no Brasil balizou parte de sua apresentação durante o workshop sobre a modernização das leis trabalhistas promovido pelo Sinproquim na quinta-feira, 28 de setembro. 

Apresentando todo o atual cenário econômico, que inclui dados expressivos sobre o mercado de trabalho, o pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e consultor do Banco Mundial, do BID e da OIT afirma: “Devemos ter um ano bem melhor do que os anteriores”. 

Inicialmente, Zylberstajn lembrou o PIB brasileiro que, nos últimos 23 anos, teve crescimento médio de 2,3%, sendo 2,3% nas duas gestões do governo Fernando Henrique Cardoso; 4% nas duas gestões do presidente Luis Inácio Lula da Sila; 2,3% no primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff e 1,2% no segundo mandato dividido com o atual presidente Michel Temer. “Depois de dois anos saímos da recessão. A previsão para o ano que vem é de 2,2% de crescimento, e já há economistas prevendo desenvolvimento positivo de 3%”, declara.

Na análise entre taxa de desemprego e rendimento médio do trabalhador, o professor destaca um dado interessante e até mesmo inesperado: o padrão natural observado é termos, em um cenário de queda da taxa de desemprego, aumento do rendimento do trabalhador, afinal em um mercado de trabalho aquecido a disputa por talentos e bons profissionais faz com que os salários se elevem. Porém o que vimos no país recentemente foi um momento em que, enquanto o desemprego crescia, o rendimento também crescia. “É algo intrigante. A recessão está começando a ser vencida, e os salários seguem crescendo acima da inflação. É, inclusive, um ponto importante para balizar as negociações do mercado”, declara o professor da USP que ressalta que o quadro das negociações coletivas para o período de 2017 a 2018 apresenta uma recuperação lenta da economia, a permanência do alto desemprego e uma inércia da inflação salarial, porém com negociações coletivas ainda concedendo aumentos reais. 

Dentro da questão do rendimento médio do trabalhador brasileiro, Zylberstajn destaca a proatividade do nosso povo e a dedicação ao trabalho, lembrando que o brasileiro é um povo que trabalha muito. “O brasileiro tem mais de um emprego e esse segundo emprego (às vezes até terceiro) representa metade do ganho do trabalho principal. A renda do conjunto cresce 50% com o segundo emprego.”

Porém, com base nesse mesmo dado, enfatiza que o rendimento total do trabalhador representa 40% do PIB brasileiro e que o restante (60%) está no capital. “No mundo desenvolvido, o cenário é o oposto. E isso mostra o quanto ainda temos que percorrer para que possamos nos equiparar a esses países. Como transferir, para o trabalhador, mais 20% do nosso PIB? Somente por meio da produtividade. E, se queremos chegar lá, precisamos focar imediatamente na questão da coletividade.” 

Retomando a pauta da nova lei sobre a modernização nas relações de trabalho e nas negociações coletivas, o pesquisador observou que as empresas estão diante de incertezas e os sindicatos seguem adotando atitudes defensivas. Enquanto a Força Sindical e a UGT escolhem uma linha pragmática, a CUT opta por uma postura mais ideológica. Além disso, as entidades sindicais estão preocupadas com suas receitas em virtude da extinção da obrigatoriedade do pagamento da contribuição sindical. Porém, mesmo mediante este cenário, o professor Zylberstajn reforça as oportunidades que surgem neste momento, visto que as relações de trabalho poderão ser otimizadas refletindo em crescimento. Para ele, “relações de trabalho melhores e instituições reguladoras mais eficientes resultam em crescimento de produtividade, que é o que nós precisamos”. 

Ainda falando em oportunidades, o palestrante prosseguiu sua explanação recomendando escolhas estratégicas e um trabalho em conjunto fundamentado em compromisso e produtividade, com as representações experimentando conviver sem a Justiça do Trabalho, utilizando preceitos como conciliação e mediação para solução de conflitos laborais. “É hora de pensar fora da caixa nas relações de trabalho”, declarou. 

A curva do salário mínimo – Zylberstajn também destaca, em sua abordagem, a questão do crescimento do salário mínimo sempre superior à inflação. “Se desde 2001 o salário mínimo tivesse sido corrigido apenas com base na inflação, hoje ele seria R$ 508, e não R$ 937, que é a nossa realidade”, diz ao comentar que é o salário mínimo aliado aos pisos salariais estaduais que empurram os pisos negociados pelas categorias. 

Ilusão monetária – Vivenciando um período de inflação bastante reduzida, o Brasil ainda sofre com a tal ilusão monetária, o que dificulta a negociação. “Era mais fácil para eles levarem uma proposta de 8% de reajuste em um cenário com uma inflação a 9% do que, hoje, sugerir um reajuste de 3% em um momento de INPC acumulado abaixo de 2%”, complementa.