William Waack fala sobre o que esperar do governo Bolsonaro em apresentação no Sinproquim

O jornalista foi o convidado da edição desta quarta-feira (28) do Café com Opinião; entre os temas abordados estiveram a nomeação de Onyx Lorenzoni e Sérgio Moro para ministérios e o poder de articulação do presidente eleito

O Sinproquim recebeu, na manhã desta quarta-feira, 28 de novembro, o jornalista, escritor e professor William Waack para a última edição de 2018 do Café com Opinião. Palestrando sobre os desafios que serão enfrentados pelo presidente eleito Jair Bolsonaro assim que assumir o mais alto cargo executivo do país em 1º de janeiro de 2019, o especialista elencou alguns dos principais motivos que o levam a acreditar em uma possível melhora econômica.

“O voto no Bolsonaro foi um voto antissistema, um voto em que as pessoas expressaram não somente o descontentamento com a corrupção, mas com o todo”, declarou relembrando o episódio da greve dos caminhoneiros que no primeiro semestre deste ano impactou o país trazendo prejuízos que se prolongam até hoje.    

Mencionando a Operação Lava Jato, que é sempre um dos temas citados em apresentações sobre a política recente do Brasil, Waack reforçou que é preciso entender a operação como algo muito mais amplo do que apenas uma atitude policial. “A Lava Jato é uma expressão inédita de indignação que acabou com o sistema político do Brasil. Como consequência, Bolsonaro foi beneficiado pela ideia criada de que apenas alguém de fora salvaria o país”, pontuou.

Sobre a entrada do juiz Sérgio Moro para a política como Ministro da Justiça na gestão de Bolsonaro, o jornalista traz uma análise bastante positiva. “A chegada de Moro na política é uma das coisas mais interessantes por mostrar que essas transformações sugerem uma renovação”, disse frisando que, se realmente isso estiver acontecendo, será extremamente benéfico para o país no longo prazo.

Analisando o que esperar da gestão de Bolsonaro como presidente, o especialista que hoje alimenta um canal no YouTube intitulado Painel WW, reforça o fato de ele ser um presidente legitimamente eleito que traz uma equipe bastante forte. O questionamento principal é sobre o poder de articulação de Bolsonaro perante o Congresso. “Esse governo começará, em primeiro lugar, tendo de exibir o grau de articulação política que dispõe para trabalhar, pois estamos em uma encruzilhada que somente se resolverá com articulações”, afirmou ao mencionar que será indispensável que o presidente eleito reúna-se com os governadores – muitos deles com estados extremamente deficitários – a fim de encontrar as melhores soluções para o país.

“A expressão ‘estamos no mesmo barco’ nunca foi mais correta”, comentou. “Bolsonaro deu um sinal claro de que entende essa situação ao colocar Onyx Lorenzoni como Ministro da Casa Civil”, complementou destacando que Lorenzoni tem razoável experiência para a função. Para Waack, é primordial que o presidente eleito entenda que precisa sim negociar com a política nacional. “Ele afirma, de forma ingênua, que consegue negociar acima da cabeça dos caciques. Mas não existe política sem negociação, sem compromisso e sem essa costura”, enfatizou relatando que já vê uma mudança de discurso por meio da recente nomeação de Ricardo Veléz Rodríguez como Ministro da Educação, uma efetiva negociação com algumas das bancadas a que Bolsonaro precisa atender.

Sobre a governabilidade do futuro presidente, destacou que dois pontos o levam a crer que ele terá efetiva governabilidade: a construção de uma equipe econômica coesa e coerente e o fato de ele trazer, para o governo, um grupo grande de militares que chega à política por mérito e tem uma ideia bastante consolidada sobre o que o país precisa fazer para se desenvolver.

Compreensão histórica – Segundo Waack, para que seja possível desvendar os melhores caminhos, antecipando um pouco do futuro, é preciso compreender o atual cenário brasileiro. “Devemos entender a natureza da crise que vivemos, que é gravíssima. O que temos é a quebra de um contrato social. Nos últimos 30 anos nós, como sociedade brasileira, tentamos criar um Estado de bem-estar social totalmente desvinculado da nossa capacidade econômica de financiá-lo. E, assim, quebramos”, relatou reforçando que vivemos uma crise estrutural e que grande parte dos brasileiros não tem dimensão da gravidade da desestruturação fiscal que assola o país.

“De cada real que sai dos cofres públicos, R$ 0,75 estão comprometidos com Previdência, pagamentos e algum tipo de incentivo ou subsídio. Sobram R$ 0,25 para todo o resto, inclusive para pagamento de juros. Podemos considerar os cofres públicos como uma grande folha de pagamento”, disse ao lembrar que cerca de dois terços da população dependem, de certa forma, dessa verba.

Outro ponto enfatizado pelo jornalista durante sua apresentação foi o modelo governamental do país, que, segundo ele, é um dos piores do mundo. “Sobre nosso sistema de governo, alguns cientistas políticos usam a expressão ‘efetividade decisória baixa’, que na verdade significa que somos incapazes de responder com a rapidez e a amplitude necessárias sobretudo em momentos de crise.” Waack também mencionou a mudança institucional dos partidos políticos que “deixaram de ser canais de transmissão de demandas e interesses e se transformaram, em sua maioria, em quadrilhas cuja única razão de existência é abocanhar a máquina pública”.

Encerrando sua apresentação, o jornalista declarou enxergar positividade. “Vejo oportunidades se abrindo, avenidas se criando e tiro das eleições 2018 uma lição essencial de que nada é inevitável, nem mesmo que a eleição de Bolsonaro se transforme nos resultados positivos que almejamos. A minha palavra final é que, de fato, só depende de nós mesmos.”

O presidente do Sinproquim, Nelson Pereira dos Reis, foi o mediador desta edição do Café com Opinião e enfatizou a relevância de William Waack na mídia brasileira. “Waack é um dos mais respeitados jornalistas do país, um profissional que tem a verdade como seu principal fundamento e que reúne conhecimento e capacidade de análise”, disse ao apresentar o convidado.