Por Luciana Oriqui e Valéria Matoso
No universo corporativo, a sigla ESG (Environmental, Social, and Governance) tornou-se um pilar para a avaliação de empresas responsáveis e com visão de futuro. Contudo, a discussão frequentemente se concentra nos pilares ambiental, social e de governança, deixando em segundo plano um componente que sustenta toda a estrutura, que é integrar a sustentabilidade financeira a quaisquer práticas que venham a ser implementadas. Esta é a diretriz para o que chamamos de ESG-F (Financial) ou ESG-E (Economic), que garante que as boas práticas ambientais, sociais e de governança sejam também realidades viáveis e perenes.
Para a indústria química, um setor de alta complexidade e competitividade, a sustentabilidade financeira não é um luxo, mas uma condição de sobrevivência e crescimento. Ela se traduz em operações eficientes, gestão de riscos apurada e, acima de tudo, em conformidade regulatória. Este artigo explora como a integração do compliance na cadeia de suprimentos é o caminho mais direto para alcançar a integração de sustentabilidade financeira, ambiental, social e de governança, fortalecendo a competitividade das empresas no cenário global.
O Coração do ESG-F: Compliance na Cadeia de Suprimentos no Comércio Exterior
A sustentabilidade financeira de uma empresa que atua no comércio exterior está intrinsecamente ligada à saúde de sua cadeia de suprimentos. É nesta cadeia que se concentram mais de 70% dos riscos regulatórios, reputacionais e operacionais que podem comprometer a estabilidade de um negócio. Uma abordagem estratégica para o ESG-F, portanto, deve começar por aqui, com um foco rigoroso em compliance e na idoneidade dos parceiros comerciais.
Uma gestão de compliance eficaz na cadeia de suprimentos se baseia em três dimensões de risco, conforme aponta a literatura especializada em gestão de cadeias de suprimentos:
| Dimensão do Risco | Descrição e Impacto Financeiro |
| Regulatório | Envolve a conformidade com uma vasta gama de normas aduaneiras, tributárias e ambientais. Falhas aqui resultam em multas, atrasos na liberação de mercadorias, custos de armazenagem e, em casos graves, na suspensão das operações. Cada dia de um contêiner parado no porto é um custo direto que corrói a margem de lucro. |
| Reputacional | A idoneidade de um fornecedor vai além de sua capacidade técnica. Envolve práticas éticas, conformidade com leis trabalhistas e ambientais e ausência de envolvimento em corrupção. Associar-se a um parceiro não conforme pode gerar danos irreparáveis à marca, perda de clientes e desvalorização no mercado. |
| Resiliência | Refere-se à capacidade da cadeia de suprimentos de resistir a choques, sejam eles geopolíticos, climáticos ou financeiros. Um fornecedor financeiramente instável ou localizado em uma região de alto risco pode interromper o fornecimento a qualquer momento, paralisando a produção e gerando perdas de receita. |
Ignorar qualquer uma dessas dimensões é abrir mão do controle sobre a própria sustentabilidade financeira de suas operações. Empresas que tratam o compliance como um centro de custo, e não como um investimento estratégico, estão, na prática, terceirizando sua estabilidade para a sorte.
OEA: A Materialização da Sustentabilidade Financeira
Nos últimos anos, a Receita Federal do Brasil vem consolidando um modelo de conformidade cooperativa, por meio de programas que incentivam transparência, autorregularização e gestão de riscos. Nesse modelo, empresas com controles internos robustos passam a ser vistas como parceiras confiáveis, com benefícios operacionais e maior previsibilidade.
Para a indústria química, altamente regulada e integrada a cadeias globais, programas de conformidade como o OEA (Operador Econômico Autorizado) da Receita Federal do Brasil deixam de ser apenas selos de qualidade e se tornam ferramentas estratégicas de ESG-F. A certificação OEA é, em essência, um atestado de que a empresa possui uma gestão de riscos madura e processos internos que garantem a conformidade e a segurança de sua cadeia logística.
Para empresas certificadas OEA, os benefícios financeiros são diretos e mensuráveis:
- Agilidade e redução de custos: Empresas OEA têm prioridade na conferência de cargas, o que reduz drasticamente os custos com armazenagem e demurrage (multas pela não devolução de contêineres).
- Melhora no fluxo de caixa: A possibilidade de diferimento no pagamento de tributos federais (que aguarda regulamentação já prevista para empresas que cumpram determinados pré-requisitos) na importação pode liberar um capital de giro precioso, que pode ser reinvestido no negócio.
- Competitividade global: Acordos de Reconhecimento Mútuo (ARM) fazem com que a empresa OEA seja reconhecida como confiável em outros países, simplificando processos e reduzindo custos também no exterior.
Como bem define Valéria Mattoso, Diretora da Serpa Consultoria, empresa há mais de 30 anos atuando na viabilização de negócios internacionais, “compliance é estratégia, e o OEA é a certificação que transforma essa estratégia em vantagem competitiva real”. Essa certificação formaliza e valida a sustentabilidade financeira da empresa perante o mercado nacional e internacional.
ESG‑F aplicado às micro e pequenas indústrias químicas
Ainda segundo Valéria Mattoso, mesmo empresas de menor porte podem avançar de forma consistente em ESG‑F, no contexto de comércio exterior, sem estruturas complexas. Algumas práticas essenciais incluem:
✔ definição clara de responsáveis pelos processos de comércio exterior
✔ padronização documental mínima
✔ critérios básicos de avaliação de fornecedores
✔ organização técnica das descrições de produtos
✔ controle e registro das decisões de classificação e origem
✔ capacitação contínua das equipes envolvidas
✔ gestão simples, mas sistemática, de riscos operacionais
Essas medidas aumentam a maturidade da empresa, reduzem vulnerabilidades e fortalecem sua posição competitiva.
O papel do Sinproquim no fortalecimento do ESG‑F
Ao apoiar suas associadas com orientação técnica, capacitação e disseminação de boas práticas, o Sinproquim contribui diretamente para elevar o nível de governança e sustentabilidade econômica do setor químico.
Em cadeias produtivas longas e reguladas, como a química, informação qualificada aliada a orientação prática é um fator decisivo para que micro e pequenas empresas consigam competir, crescer e se manter em conformidade.
Um Chamado à Ação Estratégica
A mensagem para a indústria química é clara: a sustentabilidade, em seu sentido mais amplo, começa pela saúde financeira do negócio. E a saúde financeira, no comércio exterior, depende diretamente de uma cadeia de suprimentos resiliente, transparente e em conformidade.
Investir em compliance, idoneidade de fornecedores e gestão de riscos é promover a redução de incertezas, preservando resultados e sustentando crescimento no longo prazo, com eficiência, segurança e competitividade. Trata-se de um passo essencial para construir uma operação verdadeiramente sustentável, capaz de prosperar em um mercado global cada vez mais exigente.
Nesse contexto, a certificação como Operador Econômico Autorizado (OEA) assume papel cada vez mais relevante para empresas que atuam no comércio exterior. Ao reconhecer formalmente a maturidade dos seus controles internos e da gestão de riscos logísticos e aduaneiros, o OEA contribui para maior previsibilidade operacional, redução de custos associados a atrasos e inspeções, além de fortalecer a confiabilidade da empresa perante autoridades e parceiros internacionais. Em um cenário de intensificação de requisitos regulatórios e de rastreabilidade nas cadeias globais de valor, são imprescindíveis os instrumentos de sustentação da estratégia ESG-F.
Cada empresa está convidada a refletir sobre sua própria estratégia de ESG-F. A jornada para a conformidade pode parecer complexa, mas os benefícios de operar com previsibilidade, segurança e reconhecimento internacional são o que diferenciarão as empresas líderes do futuro.
- Sobre as autoras
Luciana Oriqui é Assessora de Sustentabilidade do Sinproquim desde 2023. Engenheira de alimentos, mestre e doutora em engenharia química, com mais de 20 anos de atuação em Sustentabilidade, ESG e Governança Corporativa, Luciana Oriqui combina formação técnica relevante e experiência multidisciplinar, Luciana é referência na integração entre ciência, indústria e estratégia de sustentabilidade. Em 2021 recebeu o Prêmio Mulan do BRICS Women Innovation Contest, China, e em 2025, o Green Future Award, da Rússia, no eixo Proteção Ambiental, ambos pelo projeto Movimento Menos Resíduo. Também em 2025, o case Movimento Menos Resíduo foi selecionado para compor o booklet SB COP 30, promovido pela CNI.
Valéria Mattoso é advogada, sócia diretora da Serpa Consultoria, e especialista em comércio exterior e compliance aduaneiro. Ela possui uma sólida formação acadêmica, incluindo graduação em Direito e especialização em Direito Processual Civil pela Faculdade Milton Campos, e em Administração com especialização em Comércio Exterior pelo Centro Universitário UNA. Além disso, é especialista em Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra e pós-graduada em Direito Empresarial Contemporâneo pela Universidade FUMEC. Sua carreira inclui a atuação como consultora do SEBRAE/MG e experiência internacional em suas áreas de especialização. Membro do Conselho de Relações Internacionais da ACMinas, FET CNI, AEB e B20. Conselheira Empresarial de várias empresas – Conselho consultivo e de Administração (Curso e Formação IEL FIEMG).
