Evento do Sinproquim e Abiquim analisou as mudanças de cenário e oportunidades em comércio exterior

Na abertura do evento, o presidente do Sinproquim, Nelson Pereira dos Reis, ressaltou a importância da parceria entre a Abiquim e o Sinproquim para municiar as empresas do setor de informações e análises qualificadas e anunciou que novos eventos conjuntos estão sendo planejados. Mais de 70 executivos do setor químico acompanharam, presencialmente ou de forma on-line, as detalhadas e acuradas apresentações de Eder da Silva, gerente de Economia e Comércio Exterior da Abiquim, e Fátima Giovanna, consultora técnica da entidade.

As mudanças no comércio internacional com o tarifaço, tanto dos Estados Unidos como da China, e os instrumentos, regulamentos e programas brasileiros, bem como os projetos de lei em análise no Congresso Nacional, para apoiar as empresas exportadoras, foram detalhados por Eder da Silva. Ele ressaltou as ações para a modernização do quadro legal, como os Projetos de Lei nºs 4.133/23, 4423/24 e 2302/25; o Portal Único de Comércio Exterior e o Programa OEA (Operador Econômico Autorizado) e programas de estímulo às exportações, como o Acredita Exportação, voltado a pequenas e médias empresas, e o Plano Brasil Soberano.

Eder sublinhou a importância de uma política industrial agregada a uma política de comércio exterior, recomendou a busca de diversificação de mercados e observou que muitas empresas sacrificaram margens, devido ao tarifaço norte-americano, para manter seus compromissos de exportação com clientes dos Estados Unidos. “Houve uma queda de US$ 20 bilhões nas exportações brasileiras para os Estados Unidos”, frisou, lembrando que a indústria química representa cerca de 50% dos códigos tarifários do Brasil.

Oportunidades

“Ter uma indústria química competitiva é ter um país competitivo”, ressaltou Fátima Giovanna em sua apresentação sobre as oportunidades de mercado, Brasil Soberano e perspectivas da indústria química brasileira sob a ótica da reforma tributária. A química, observou, está presente em mais de 90% da indústria de transformação. “A cada um milhão de reais no aumento da produção química, há R$ 960 mil de acréscimo no PIB. O mesmo valor de R$ 1 milhão associado a novos investimentos no setor químico, em especial na química verde, gera acréscimo de R$ 1,78 milhão no PIB”, afirmou.

Sexta maior indústria química do mundo, com US$ 167,8 bilhões de faturamento líquido em 2025, o setor químico brasileiro responde pelo terceiro maior PIB da indústria de transformação, é o terceiro em arrecadação de tributos federais, o quarto maior empregador direto da indústria de transformação e o segundo a pagar maiores salários. O setor utiliza a energia mais limpa e sustentável do mundo, com 82,9% obtidos de fontes renováveis e emite metade de CO2 para cada tonelada produzida em relação a concorrentes internacionais.

Em sua análise, Fátima observou que a disputa deixou de ser apenas por mercados, mas também por capacidade produtiva. A China, por exemplo, construiu entre 2020 e 2024 a mesma capacidade petroquímica da existente na Europa, no Japão e na Coreia, somadas. Segundo ela, os fundamentos da competitividade permanecem praticamente os mesmos: custo e disponibilidade de matérias-primas, escala medida por produtividade e eficiência, acesso e integração ao mercado, capital para financiamento e investimentos, ambiente de negócios que engloba infraestrutura, logística e segurança jurídica, e inovação, medida por tecnologia e sustentabilidade. Ao analisar a evolução do setor ao longo do tempo, ressaltou que o Brasil não apenas passou a importar mais, mas deixou de produzir. “Mais de 2 mil linhas de produção foram desativadas, das quais 1.127 em apenas cinco anos, de 1996 a 2000, e 650 produtos químicos deixaram de ter produção nacional”. O caso do metanol é ilustrativo: o País passou de produtor a dependente líquido de importações, com o fechamento da última unidade produtora em julho de 2016.

Em relação à reforma tributária, Fátima observou que ela melhora o ambiente, mas não resolve tudo e que permanecem de fora da reforma fatores como custo e disponibilidade de matéria-prima, gás e energia competitivos, logística e infraestrutura, escala, ociosidade e custo de capital, pressão de importações e assimetrias externas.

Apesar do quadro difícil, ela frisou que o Brasil tem ativos que poucos países reúnem, como a matriz diversificada e renovável de energia, petróleo, gás e biomassa, bioeconomia, amplo mercado com cadeias diversificadas e uma importante base industrial. “O desafio está em transformar vantagens comparativas em vantagem competitiva”, afiançou, observando que o diferencial brasileiro pode estar em produzir de outra forma, e não em produzir mais, combinando bioeconomia, circularidade e baixo carbono. Fátima destacou também que o objetivo não é o de produzir tudo, mas preservar capacidade estratégica.