Ormuz não é só sobre petróleo: três perguntas que a crise deixa para a indústria química brasileira

O Estreito de Ormuz, por onde transita parcela relevante do petróleo comercializado por via marítima no mundo, permaneceu efetivamente fechado desde 28 de fevereiro de 2026, em razão do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Em 18 de junho, Washington e Teerã assinaram memorando de entendimento para encerrar o conflito e reabrir a via, o que reduziu temporariamente a pressão sobre os mercados. O alívio durou menos de três semanas. Em 7 de julho, o OFAC revogou a autorização geral que permitia determinadas operações com petróleo e derivados de origem iraniana; no dia seguinte, em 8 de julho, forças norte-americanas realizaram novos ataques contra o Irã, sob o argumento de responder a agressões contra embarcações comerciais e proteger a liberdade de navegação no estreito.

Os números do episódio dão a dimensão do choque. Segundo a Energy Information Administration (EIA), agência oficial de estatísticas energéticas dos EUA, o fechamento do estreito provocou forte disrupção nos fluxos globais de petróleo, queda de preços após a assinatura do memorando de 18 de junho e paralisações de produção que chegaram ao pico de 11,2 milhões de barris por dia em maio. O Brent, que atingiu média de US$ 103 em março, fechou junho com média de US$ 85. A FAO documentou os impactos do conflito sobre o comércio global de fertilizantes e a segurança alimentar e a UNCTAD dedicou estudo específico ao peso dos choques de preço do petróleo sobre economias vulneráveis.

Em posicionamento setorial publicado em março de 2026, a Abiquim já indicava que os impactos para a indústria química brasileira ocorriam principalmente por vias indiretas, como energia, fertilizantes, petroquímicos básicos e logística marítima internacional. A entidade também registrou que a pressão sobre o Brent afeta diretamente a nafta petroquímica, principal insumo do setor no Brasil, e que o preço da ureia no Brasil já acumulava alta superior a 33% desde o início do conflito, em um país que importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome.

Até aqui, a leitura convencional. A crise de Ormuz, porém, deixa ao setor químico três perguntas que a análise de custos não alcança.

1. Risco geopolítico é tema de sustentabilidade?

Deveria ser. A lógica da dupla materialidade, presente nos referenciais europeus de relato de sustentabilidade, exige que a empresa observe simultaneamente seus impactos sobre pessoas e meio ambiente e os efeitos financeiros que temas ambientais, sociais e de governança podem produzir sobre seu próprio desempenho, posição e continuidade. Um estrangulamento marítimo a 12 mil quilômetros de distância comprimiu margens petroquímicas, encareceu fertilizantes e pressionou o câmbio no Brasil em questão de semanas. Cabe perguntar: quantas matrizes de materialidade da indústria química brasileira tratam hoje a concentração geográfica de suprimento como tema material? Quantas análises de cenário incorporam a hipótese, agora testada na prática, de fechamento prolongado de uma rota crítica? Resiliência de cadeia deixou de ser exercício teórico de gestão de riscos e passou a ser condição de continuidade operacional.

2. Onde estão as pessoas nas nossas cadeias?

A dimensão menos discutida da crise é humana. Segundo a Organização Marítima Internacional (IMO), agência especializada da ONU, a instabilidade no Estreito de Ormuz atingiu diretamente milhares de marítimos e embarcações comerciais. A IMO informa que mais de 20 mil marítimos foram impactados na região, que ao menos 14 morreram em incidentes relacionados ao conflito e que o plano de evacuação coordenado pela entidade, concebido para retirar mais de 11 mil pessoas, chegou a evacuar 2.900 marítimos em 136 embarcações antes de ser pausado após novos ataques. Cerca de 6 mil marítimos permanecem retidos na região. A due diligence de fornecedores praticada pela indústria costuma parar no portão da fábrica. Ormuz mostrou que a cadeia também tem convés. Ainda que a CSDDD tenha escopo de aplicação próprio e não alcance indistintamente todas as empresas brasileiras, ela consolida uma tendência regulatória relevante: a expectativa de que empresas abrangidas por regimes de due diligence identifiquem e tratem impactos adversos em direitos humanos e meio ambiente tanto em suas operações próprias quanto em suas subsidiárias e cadeias de atividades. Nesse contexto, o elo logístico marítimo deixa de ser periférico e passa a integrar a análise de riscos da cadeia.

3. Matéria-prima renovável é agenda ambiental ou de segurança de suprimento?

O Brasil detém uma base de matérias-primas renováveis, do etanol à biomassa e aos resíduos agroindustriais, que reduz a exposição do setor à volatilidade fóssil e às rotas marítimas concentradas. Cada ponto porcentual de insumo de origem local e renovável na matriz da química brasileira é, simultaneamente, descarbonização e blindagem geopolítica. O mesmo raciocínio vale para a eficiência no uso de recursos: prevenir perdas de insumos e produtos ao longo da cadeia, antes que se convertam em resíduos, reduz a necessidade de reposição justamente nos momentos em que repor custa mais caro. Sob essa ótica, a transição para uma química mais circular e de base renovável não compete com a competitividade. É a forma estrutural de protegê-la.

O estreito pode reabrir de novo nas próximas semanas, ou não. A própria UNCTAD, em edição publicada após a reabertura de junho, alertou que os efeitos acumulados em mais de 100 dias de disrupção seguirão sendo sentidos por muitos meses, que o caminho de recuperação tende a ser mais longo, desigual e custoso para as economias mais expostas, e que o investimento em resiliência, incluindo a diversificação de fontes de suprimento, é a resposta estrutural. O que a crise já demonstrou não muda: cadeias longas, fósseis e geograficamente concentradas transferem para dentro da fábrica riscos que nenhum contrato de fornecimento resolve. Sustentabilidade, nesse contexto, não é agenda paralela ao negócio. É a inteligência estratégica que prepara a indústria química brasileira para um mundo em que o próximo choque não avisa a data.

Fontes

1. EIA, Short-Term Energy Outlook, julho/2026 (memorando de 18/6, preços do Brent, paralisações de produção): https://www.eia.gov/outlooks/steo/report/global_oil.php

2. EIA, Global Energy Security Data / World Oil Transit Chokepoints (queda de ~30% no fluxo pelo estreito no 1T26): https://www.eia.gov/international/analysis/special-topics/world_oil_transit_Chokepoints

3. IMO, hub oficial sobre o Estreito de Ormuz (marítimos mortos, embarcações atacadas, evacuação, links para os estudos da UNCTAD e da FAO): https://www.imo.org/en/mediacentre/hottopics/pages/middle-east-strait-of-hormuz.aspx

4. IMO, anúncio do plano de evacuação de mais de 11 mil marítimos (23/6/2026): https://www.imo.org/en/mediacentre/pressbriefings/pages/imo-accounces-evacuation-plan-in-strait-of-hormuz.aspx

5. UN News, evacuação de 2.500 marítimos e suspensão da operação (26/6/2026): https://news.un.org/en/story/2026/06/1167818

6. Agência Brasil, retomada dos ataques dos EUA ao Irã (8/7/2026): https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-07/forcas-dos-eua-realizam-novos-ataques-contra-ira

7. Abiquim, posicionamento oficial sobre o conflito e impactos na indústria química brasileira: https://abiquim.org.br/comunicacao/noticia/12125

8. UNCTAD, “Strait of Hormuz Disruptions: The burden of oil price shocks on vulnerable economies” (2/6/2026): https://unctad.org/publication/strait-hormuz-disruptions-burden-oil-price-shocks-vulnerable-economies

9. FAO, “Global Agrifood Implications of the 2026 Conflict in the Middle East: Impacts on energy and fertilizer trade, and food security”: https://www.fao.org/north-america/resources/publications/global-agrifood-implications-of-the-2026-conflict-in-the-middle-east/en

10. OFAC / Departamento do Tesouro dos EUA, revogação da General License X e emissão da General License X1, encerrando a autorização para operações com petróleo de origem iraniana (7/7/2026): https://ofac.treasury.gov/recent-actions/20260707

11. UNCTAD, “Strait of Hormuz Disruptions: Beyond reopening – lasting impacts on vulnerable economies” (UNCTAD/OSG/INF/2026/4, edição posterior à reabertura de junho): https://unctad.org/publication/strait-hormuz-disruptions-beyond-reopening-lasting-impacts-vulnerable-economies